terça-feira, 31 de julho de 2012

Copa promove criação de postos de trabalho

(Por Cláudio Barreto. Matéria publicada na Revista Agitação n.° 105) No dia 12 de junho de 2014, quando o árbitro escolhido pela FIFA, o órgão que dirige o futebol mundial, apitar o início da Copa do Mundo, em São Paulo – no estádio do Sport Club Corinthians, clube mais popular da cidade –, mais de 65 mil pessoas estarão acompanhando nas arquibancadas a seleção brasileira contra um adversário definido em sorteio, seis meses antes da competição. Milhões de pessoas vão se aglomerar nos inúmeros telões instalados em várias partes do Brasil. As cifras para os aparelhos sintonizados na TV e demais mídias já é calculada na casa dos bilhões de espectadores: serão 73 mil horas de transmissão televisivas para 214 países e territórios, com uma audiência estimada em mais de 20 bilhões de pessoas.
Desde 2007, quando Josef Blatter, o todo-poderoso da FIFA, anunciou o Brasil como país-sede da Copa, a nação vem correndo contra o tempo para formar a mega-estrutura necessária para a organização do maior evento esportivo do mundo. De acordo com o Grupo Executivo da Copa (Gecopa), serão 101 intervenções no país, com a construção e reforma de 12 estádios, 51 projetos de mobilidade urbana para as 12 cidades-sede – Belo Horizonte/MG, Brasília/DF, Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Fortaleza/CE, Manaus/AM, Natal/RN, Porto Alegre/RS, Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e São Paulo/SP –, 31 ações de aeroportos e 7 em portos, numa previsão de gastos que já superam os R$ 30 bilhões.
O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, que renunciou ao cargo em março deste ano, disse na época em que o Brasil conquistou o direito de sediar o torneio: “A Copa do Mundo vai muito além de um mero evento esportivo. Vai ser uma ferramenta interessante para promover uma transformação social.”
Somada a organização da Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, os dois maiores eventos do planeta trazem oportunidades ímpares para o desenvolvimento de várias áreas no Brasil. A maior exposição na mídia internacional deve elevar a imagem do país como destino turístico. De acordo com estudo da fundação Getúlio Vargas (FGV), encomendada pelo Ministério do Turismo, espera-se que em 2014, 8 milhões de visitantes venham ao Brasil. No mês da Copa serão 600 mil estrangeiros, realizando por volta de 2 milhões de viagens pelas cidades-sede. Já os 3 milhões de brasileiros que circularão pelo país, farão cerca de 6 milhões de viagens pelas 12 capitais. O Rio de Janeiro deve receber o maior número de estrangeiros, com 413 mil visitantes, seguido de São Paulo, com 258 mil e Brasília com 207 mil. Entre os brasileiros, a preferência é por São Paulo, com 1,2 milhão de visitas estimadas, seguida de Rio de Janeiro com 840 mil e Fortaleza, com 564 mil. Além disso, o campeonato atrairá 15 mil jornalistas, 15 mil voluntários para tarefas diversas, 300 funcionários e convidados da FIFA, cuja a lista de exigência inclui ainda jatinhos, limusines e 400 automóveis.
As estimativas, no entanto, geralmente ficam acima da realidade. Na Copa de 2002, a Coréia do Sul esperava 500 mil turistas, mas só compareceram 50% deles. Antes do Mundial da Alemanha, em 2006, falava-se na criação de 100 mil empregos. Estudo feito após o evento mostrou apenas a metade disso.
 
Infra-estrutura necessária. Os números projetados para o Brasil, porém, podem ser superiores, visto à necessidade da melhoria geral da infra-estrutura, que passa por modificações nos setores de transporte, saneamento básico, comunicação, educação e segurança. Segundo o Ministério do Esporte, a Copa do Mundo vai gerar 330 mil empregos permanentes e 380 mil temporários. Os profissionais serão absorvidos principalmente nas áreas de hospedagem, alimentação, recepção, segurança e serviços gerais. 
Estudos feitos pela consultoria Ernest & Young mostram que os setores ligados à Construção Civil serão os mais beneficiados pela realização da Copa. Os engenheiros lideram as estatísticas da demanda por profissionais, com um vasto leque de atuação: estudo das viabilidades técnicas para as obras; desenvolvimento e acompanhamento dos projetos; responsabilidade sobre os impactos do meio ambiente.
Para Ângelo Zanini, diretor da Faculdade de Engenharia da Universidade São Judas Tadeu, a profissão já vem de um bom momento por conta do expressivo aumento das construções habitacionais, reflexo da facilidade, nos últimos anos, de financiamentos para a casa própria para a classe C, em ascensão. “Após o anúncio da realização da Copa, isso se potencializou”, disse, referindo-se às necessidades de profissionais da área envolvidos nas construções dos estádios, infra-estrutura hoteleira e intervenções em aeroportos e de mobilidade nas cidades. Com isso, não só os engenheiros civis, envolvidos no planejamento e construção, mas também os de elétrica (geração e distribuição de energia), e mecânica (projetos de fabricação de tratores e grandes máquinas) estão sendo muito requisitados.
Entre os exemplos de obras para a Copa que acentuam a necessidade de profissionais da construção civil – como arquitetos, mestres de obras, azulejistas, pedreiros, carpinteiros, pintores, eletricistas, encanadores – estão a ampliação dos terminais dos aeroportos de São Paulo e Campinas; a revitalização da zona portuária carioca, com reurbanização de vias públicas, calçadas e museus, além da construção de dois túneis; a linha VLT Parangaba-Mucuripe, em Fortaleza, que ligará o setor hoteleiro da orla e o centro; a construção do terminal marítimo de Salvador, equipado com centro gastronômico e de lazer, com vista à Baía de Todos os Santos; a ponte sobre o Rio Coxipó, em Cuiabá, como alternativa de tráfego do Jardim das Palmeiras e Parque Ohara, entre muitos outros. “A Copa é algo simbólico. Há todo um país a se construir, conforme a elevação de renda da população, que está comprando mais moradias e mais veículos e que precisa urgentemente de saneamento básico”, diz Zanini.

Aulas mais interessantes. O crescimento da demanda das áreas correlatas à construção civil mostra que os jovens estão antenados à nova realidade do mercado, segundo o docente. Isso pode ser verificado no aumento da procura por cursos de engenharia nos últimos anos. “Estamos aproveitando a Copa como mote de algumas aulas, o que torna o curso mais interessante.” Para o coordenador da São Judas Tadeu, a demanda por profissionais da área não vai acabar com o fim dos mega-eventos esportivos. “Não é uma bolha; a demanda é sustentável.”
Os reflexos da proximidade das grandes competições mundiais também absorvem outros setores. “Estamos sentindo um impacto importante no Turismo. Praticamente todos os estudantes da graduação estão trabalhando ou estagiando na área, o que não era muito comum antigamente”, afirma Maria José Giaretta, mestre em Turismo e professora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Universidade São Judas Tadeu. As principais demandas na área vêm das agências de turismo, de eventos, companhias aéreas e redes hoteleiras.
A estagiária Vânia Cristina de Oliveira Pereira, 19 anos, está colhendo os frutos da escolha certeira da profissão. No 2.º ano da graduação em Turismo pela Universidade Nove de Julho (Uninove), de São Paulo, a jovem mostra-se otimista com o futuro. “A Copa do Mundo já está nos beneficiando; é só ver como o mercado está aquecido”, diz. Há dois meses no estágio da SG Viagens e Turismo, Vânia está aprendendo bastante e pretende se capacitar cada vez mais na área. “A gente não pode parar. O mercado exige isso.”

Capacitação de estudantes. Para que o Brasil se consolide como um destino internacional de destaque – ainda não está nem entre os 10 países mais visitados do mundo –, será necessária uma série de mudanças que vise à melhora na recepção de turistas, na acomodação e no transporte nas principais cidades do país, com desenvolvimento paralelo de áreas como a hotelaria, as comunicações, a cultura, o lazer e o comércio varejista.
A preocupação, no entanto, não se refere apenas no tocante à infra-estrutura, mas também à capacitação de profissionais. Não é raro ver nas principais cidades turísticas, dificuldades de comunicação entre brasileiros e estrangeiros. Com a qualificação pautada na excelência dos serviços, o capital humano treinado poderá abordar turistas, não apenas sanando, mas superando suas expectativas.
Para alcançar o sucesso na empreitada, o governo criou 32 cursos gratuitos para a qualificação de jovens com diversas áreas ligadas ao turismo, como agente de viagens, condutor de turismo de aventura, cozinheiro industrial e monitor de recreação. Os interessados devem ter mais de 18 anos, morar em uma das 12 cidades-sede ou em torno de um destino turístico escolhido. Em São Paulo, por exemplo, foram selecionados a capital e mais os municípios de Atibaia, Ilhabela e Campinas. No Ceará, além de Fortaleza, serão capacitados jovens de Aquiraz, Aracati, Beberibe, Caucaia, Cascavel e Paraipaba. Informações sobre as inscrições podem ser feitas pelo telefone 0800-606-8484. (Por Cláudio Barreto. Matéria publicada na Revista Agitação n.° 105)

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