(Por Cláudio Barreto. Matéria publicada na Revista Agitação n.° 105) No dia 12 de junho de 2014, quando o árbitro escolhido pela
FIFA, o órgão que dirige o futebol mundial, apitar o início da Copa do Mundo,
em São Paulo – no estádio do Sport Club Corinthians, clube mais popular da
cidade –, mais de 65 mil pessoas estarão acompanhando nas arquibancadas a
seleção brasileira contra um adversário definido em sorteio, seis meses antes
da competição. Milhões de pessoas vão se aglomerar nos inúmeros telões
instalados em várias partes do Brasil. As cifras para os aparelhos sintonizados
na TV e demais mídias já é calculada na casa dos bilhões de espectadores: serão
73 mil horas de transmissão televisivas para 214 países e territórios, com uma
audiência estimada em mais de 20 bilhões de pessoas.
Desde 2007, quando Josef Blatter, o todo-poderoso da FIFA,
anunciou o Brasil como país-sede da Copa, a nação vem correndo contra o tempo
para formar a mega-estrutura necessária para a organização do maior evento
esportivo do mundo. De acordo com o Grupo Executivo da Copa (Gecopa), serão 101
intervenções no país, com a construção e reforma de 12 estádios, 51 projetos de
mobilidade urbana para as 12 cidades-sede – Belo Horizonte/MG, Brasília/DF,
Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Fortaleza/CE, Manaus/AM, Natal/RN, Porto Alegre/RS,
Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e São Paulo/SP –, 31 ações de
aeroportos e 7 em portos, numa previsão de gastos que já superam os R$ 30 bilhões.
O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF),
Ricardo Teixeira, que renunciou ao cargo em março deste ano, disse na época em que o Brasil
conquistou o direito de sediar o torneio: “A Copa do Mundo vai muito além de um
mero evento esportivo. Vai ser uma ferramenta interessante para promover uma
transformação social.”
Somada a organização da Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016,
os dois maiores eventos do planeta trazem oportunidades ímpares para o
desenvolvimento de várias áreas no Brasil. A maior exposição na mídia
internacional deve elevar a imagem do país como destino turístico. De acordo
com estudo da fundação Getúlio Vargas (FGV), encomendada pelo Ministério do
Turismo, espera-se que em 2014, 8 milhões de visitantes venham ao Brasil. No
mês da Copa serão 600 mil estrangeiros, realizando por volta de 2 milhões de
viagens pelas cidades-sede. Já os 3 milhões de brasileiros que circularão pelo
país, farão cerca de 6 milhões de viagens pelas 12 capitais. O Rio de Janeiro
deve receber o maior número de estrangeiros, com 413 mil visitantes, seguido de
São Paulo, com 258 mil e Brasília com 207 mil. Entre os brasileiros, a
preferência é por São Paulo, com 1,2 milhão de visitas estimadas, seguida de
Rio de Janeiro com 840 mil e Fortaleza, com 564 mil. Além disso, o campeonato
atrairá 15 mil jornalistas, 15 mil voluntários para tarefas diversas, 300
funcionários e convidados da FIFA, cuja a lista de exigência inclui ainda
jatinhos, limusines e 400 automóveis.
As estimativas, no entanto, geralmente ficam acima da
realidade. Na Copa de 2002,
a Coréia do Sul esperava 500 mil turistas, mas só
compareceram 50% deles. Antes do Mundial da Alemanha, em 2006, falava-se na
criação de 100 mil empregos. Estudo feito após o evento mostrou apenas a metade
disso.
Infra-estrutura
necessária. Os
números projetados para o Brasil, porém, podem ser superiores, visto à
necessidade da melhoria geral da infra-estrutura, que passa por modificações
nos setores de transporte, saneamento básico, comunicação, educação e
segurança. Segundo o Ministério do Esporte, a Copa do Mundo vai gerar 330 mil
empregos permanentes e 380 mil temporários. Os profissionais serão absorvidos principalmente
nas áreas de hospedagem, alimentação, recepção, segurança e serviços
gerais.
Estudos feitos pela consultoria Ernest & Young mostram
que os setores ligados à Construção Civil serão os mais beneficiados pela
realização da Copa. Os engenheiros lideram as estatísticas da demanda por
profissionais, com um vasto leque de atuação: estudo das viabilidades técnicas
para as obras; desenvolvimento e acompanhamento dos projetos; responsabilidade
sobre os impactos do meio ambiente.
Para Ângelo Zanini, diretor da Faculdade de Engenharia da
Universidade São Judas Tadeu, a profissão já vem de um bom momento por conta do
expressivo aumento das construções habitacionais, reflexo da facilidade, nos
últimos anos, de financiamentos para a casa própria para a classe C, em ascensão. “Após o
anúncio da realização da Copa, isso se potencializou”, disse, referindo-se às
necessidades de profissionais da área envolvidos nas construções dos estádios,
infra-estrutura hoteleira e intervenções em aeroportos e de mobilidade nas
cidades. Com isso, não só os engenheiros civis, envolvidos no planejamento e
construção, mas também os de elétrica (geração e distribuição de energia), e
mecânica (projetos de fabricação de tratores e grandes máquinas) estão sendo
muito requisitados.
Entre os exemplos de obras para a Copa que acentuam a
necessidade de profissionais da construção civil – como arquitetos, mestres de
obras, azulejistas, pedreiros, carpinteiros, pintores, eletricistas,
encanadores – estão a ampliação dos terminais dos aeroportos de São Paulo e
Campinas; a revitalização da zona portuária carioca, com reurbanização de vias
públicas, calçadas e museus, além da construção de dois túneis; a linha VLT
Parangaba-Mucuripe, em Fortaleza, que ligará o setor hoteleiro da orla e o
centro; a construção do terminal marítimo de Salvador, equipado com centro
gastronômico e de lazer, com vista à Baía de Todos os Santos; a ponte sobre o
Rio Coxipó, em Cuiabá, como alternativa de tráfego do Jardim das Palmeiras e
Parque Ohara, entre muitos outros. “A Copa é algo simbólico. Há todo um país a
se construir, conforme a elevação de renda da população, que está comprando
mais moradias e mais veículos e que precisa urgentemente de saneamento básico”,
diz Zanini.
Aulas mais
interessantes. O
crescimento da demanda das áreas correlatas à construção civil mostra que os
jovens estão antenados à nova realidade do mercado, segundo o docente. Isso
pode ser verificado no aumento da procura por cursos de engenharia nos últimos
anos. “Estamos aproveitando a Copa como mote de algumas aulas, o que torna o
curso mais interessante.” Para o coordenador da São Judas Tadeu, a demanda por
profissionais da área não vai acabar com o fim dos mega-eventos esportivos. “Não
é uma bolha; a demanda é sustentável.”
Os reflexos da proximidade das grandes competições mundiais
também absorvem outros setores. “Estamos sentindo um impacto importante no
Turismo. Praticamente todos os estudantes da graduação estão trabalhando ou
estagiando na área, o que não era muito comum antigamente”, afirma Maria José
Giaretta, mestre em Turismo e professora na Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo (PUC-SP) e Universidade São Judas Tadeu. As principais demandas na
área vêm das agências de turismo, de eventos, companhias aéreas e redes
hoteleiras.
A estagiária Vânia Cristina de Oliveira Pereira, 19 anos,
está colhendo os frutos da escolha certeira da profissão. No 2.º ano da
graduação em
Turismo pela Universidade Nove de Julho (Uninove), de São
Paulo, a jovem mostra-se otimista com o futuro. “A Copa do Mundo já está nos
beneficiando; é só ver como o mercado está aquecido”, diz. Há dois meses no
estágio da SG Viagens e Turismo, Vânia está aprendendo bastante e pretende se
capacitar cada vez mais na área. “A gente não pode parar. O mercado exige
isso.”
Capacitação de
estudantes. Para que
o Brasil se consolide como um destino internacional de destaque – ainda não
está nem entre os 10 países mais visitados do mundo –, será necessária uma série
de mudanças que vise à melhora na recepção de turistas, na acomodação e no transporte
nas principais cidades do país, com desenvolvimento paralelo de áreas como a
hotelaria, as comunicações, a cultura, o lazer e o comércio varejista.
A preocupação, no entanto, não se refere apenas no tocante à
infra-estrutura, mas também à capacitação de profissionais. Não é raro ver nas
principais cidades turísticas, dificuldades de comunicação entre brasileiros e
estrangeiros. Com a qualificação pautada na excelência dos serviços, o capital
humano treinado poderá abordar turistas, não apenas sanando, mas superando suas
expectativas.
Para alcançar o sucesso na empreitada, o governo criou 32 cursos
gratuitos para a qualificação de jovens com diversas áreas ligadas ao turismo,
como agente de viagens, condutor de turismo de aventura, cozinheiro industrial
e monitor de recreação. Os interessados devem ter mais de 18 anos, morar em uma
das 12 cidades-sede ou em torno de um destino turístico escolhido. Em São
Paulo, por exemplo, foram selecionados a capital e mais os municípios de
Atibaia, Ilhabela e Campinas. No Ceará, além de Fortaleza, serão capacitados
jovens de Aquiraz, Aracati, Beberibe, Caucaia, Cascavel e Paraipaba.
Informações sobre as inscrições podem ser feitas pelo telefone 0800-606-8484. (Por Cláudio Barreto. Matéria publicada na Revista Agitação n.° 105)



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