Considerada uma das jornalistas mais completas do país,
Miriam Leitão, comentarista econômica da TV Globo lançou recentemente o livro Saga
Brasileira, no qual conta a história dos planos econômicos e do
cotidiano
do brasileiro durante os períodos de inflação.
A seguir a entrevista que eu fiz com ela, publicada na Revista Agitação
n.º 100. Interessante principalmente para quem se liga em História,
Jornalismo e Economia.
Agitação – O livro Saga Brasileira está
entre os mais vendidos no país. Como foi para a jornalista Miriam Leitão
escrever uma história da economia brasileira e fazer tanto sucesso?
Miriam Leitão – Gosto muito de economia e acho
que as pessoas sabem mais do que pensam que sabem sobre o assunto. Quando elas
tomam decisões sobre seu dinheiro, no dia-dia, estão tomando decisões
econômicas. Como jornalista, preciso de ser entendida e deixar o “economês” de
lado. No entanto, tenho mais de 30 anos de jornalismo econômico, ou seja, tenho
de ser exata do ponto de vista econômico, mas também preciso ser clara. O
desafio é esse: manter o conteúdo econômico, mas fazer um produto jornalístico.
Agitação – O livro foi lançado no momento em que temos uma inflação querendo dar
as caras de novo. É bom ficarmos alertas? Você vê riscos de o governo perder o
controle da inflação?
Miriam Leitão – Não acho que exista o risco de
perder o controle. Mas a inflação acumulada nos últimos 12 meses está acima da
meta. No começo do ano houve mais riscos, e agora menos. Mas acredito na
sabedoria do povo brasileiro. Ele não vai deixar a inflação subir muito. O
governo que brincar com isso vai ser punido com queda de popularidade. O país
não quer mais inflação alta. Tanto que quando começou a subir, todos se
assustaram. O governo terá de obedecer a esse comando. Caso contrário, terá
baixa popularidade.
Agitação – Os jovens não viveram aquele período inflacionário e talvez a maioria nem
saiba o que é inflação. O que o livro Saga Brasileira pode
acrescentar para os leitores que não conviveram com essa realidade?
Miriam Leitão – Quando fui escrever o livro,
pensei em vários tipos de público. Os da minha faixa etária viveram a inflação
fora de controle e todas as mudanças de regras. Eu queria contar para eles o
quanto que nós resistimos. Porque muita gente da minha geração já se confunde
com os planos econômicos. E também pensava nos jovens, porque queria que eles
tivessem noção do que seus pais viveram. E estou tendo muita resposta desse
público. Um dia desses estava em Joinville e um jovem me disse que não tinha
noção do quanto foi complicado esse período. Então também mirei neles, que estão
entrando agora no mercado de trabalho, para que saibam os riscos que a gente
correu, como lidamos com essas dificuldades e como o país resistiu a isso tudo.
Agitação – E como uma população com baixo nível de escolaridade e de poder
aquisitivo conseguia sobreviver aos excessivos e mirabolantes planos econômicos
da época e à inflação galopante?
Miriam Leitão – Ao reeditar essa história, aprendi
a nunca subestimar a inteligência do povo brasileiro. Apesar da baixa
escolaridade, que é um dos problemas que a gente tem de enfrentar, ele é
inteligente. Mesmo com essas dificuldades, o povo conseguiu entender coisas
muito complexas do ponto de vista econômico, como a história da URV (Unidade
Real de Valor) – uma moeda virtual, que não existia, apenas uma unidade de
conta. O governo deu um prazo na época, de um ano para que as pessoas
entendessem aquele mecanismo, mas em três meses 95% dos contratos de aluguéis,
salários, mensalidades escolares e condomínios já estavam convertidos para URV.
Conto casos que li em jornais da época em que vendedores ambulantes do centro
do Rio de Janeiro colocavam placas: venha aqui que te ensino como funciona a
URV.
Agitação – Quando surgiu o Plano Cruzado, o Brasil vivia a esperança da
redemocratização e o povo apostou no plano, foi às ruas, serviu de fiscal do
Sarney. O PMDB elegeu praticamente todos os governadores naquele ano e após as
eleições o plano sucumbiu. Na sua análise, era um plano eleitoreiro ou de boas
intenções?
Miriam Leitão – Era inicialmente um plano com boas
intenções. Houve uma grande discussão dentro da PUC (Pontifícia Universidade
Católica) do Rio, anos de debate para se desenvolver uma tecnologia de combate
à inflação brasileira. A nossa era diferente das outras do mundo; era uma super
inflação e depois uma hiperinflação indexada que durou mais de duas décadas.
Então, os economistas estudaram que as terapias tradicionais não funcionavam no
Brasil. Precisava de um choque heterodoxo ou a entrada de uma nova moeda. O
presidente José Sarney aplicou aquilo que já havia sido muito discutido na
academia.
Agitação – E por que não deu certo?
Miriam Leitão – No começo deu certo, mas aí o
presidente Sarney ficou muito encantado com a popularidade dele, que cresceu
muito, e resolveu não fazer os ajustes necessários nas contas públicas para
garantir a manutenção do plano. Ele não queria dar má notícia e perder a
popularidade. Depois também teve uma interferência política que distorceu um
pouco. Mas o Cruzado foi um fenômeno sociológico importante porque mostrou o
quanto o brasileiro estava disposto a fazer qualquer coisa para ter uma
inflação baixa. Eles não foram fiscais do Sarney. Era um consumidor a se
envolver na luta para salvar a economia do país.
Agitação – Você acha que esse “fazer qualquer coisa” pela inflação baixa foi o que
permitiu ao governo Collor colocar em ação um plano tão audacioso como o
confisco da poupança, com a população aceitando aquilo tudo?
Miriam Leitão – O Plano Collor foi o pior plano já
feito. Ele foi mal elaborado, mal implantado, mal executado e provocou a maior
violência econômica que o Brasil já viveu, que foi o sequestro do dinheiro que
as famílias conseguiram guardar nos bancos e estavam aplicados em títulos públicos. Era
um voto de confiança das famílias e das empresas nos títulos do governo e na
caderneta de poupança que era uma garantia federal. O povo brasileiro foi
traído. E não reagiu contra porque era o início de governo. É natural que o
presidente tenha apoio no princípio. E o próprio presidente Collor transferia
para as elites ou especuladores, a culpa daquilo que ele tinha responsabilidade
e tinha aceitado em fazer um plano de confisco. O povo brasileiro aceitou até
isso porque estava desesperado, mas, em três meses, a inflação já tinha
atingido dois dígitos. Aí a popularidade do presidente ruiu de vez.
Agitação – E o plano real, por que deu certo?
Miriam Leitão – O Plano Real deu certo porque
aprendeu com os erros dos outros planos. Mas o mais importante foi o fato de
ter convocado as pessoas a entenderem primeiro, para ser colocado em prática depois. Foi
o que aconteceu com a URV. Quando todo mundo tiver entendido, vamos
transformá-la numa nova moeda.
Agitação – Mas
as condições políticas e econômicas eram muito desfavoráveis na época.
Miriam Leitão – Não eram nada fáceis. Era um
governo tampão, porque o presidente tinha caído e o vice-presidente, Itamar
Franco, tinha assumido por um período curto. Fernando Henrique Cardoso foi o
quarto ministro da Fazenda em quatro meses. Restava muito pouco tempo para
aquele governo. E estava todo mundo assustado pelo Plano Collor. E o Plano Real
veio prometendo não trazer surpresas e ensinando a população como deveria ser.
Mas, depois, o plano precisou ser garantido pelas várias crises que aconteceram
a seguir, como a bancária, a asiática, o colapso cambial de 1999, e até na
transição política. O trabalho do Fernando Henrique nos oito anos seguintes foi
fazer a consolidação. Mas tudo poderia ter sido perdido se o presidente Lula
não tivesse tido a sabedoria de manter as bases do plano, apesar de, no quadro
político, ter sido adversário dos autores do plano. Lula foi muito sábio e
Fernando Henrique muito persistente nos vários testes e desafios que o plano
enfrentou. Acho que a gente fez um bom trabalho coletivo como país e pelas
pessoas.
Agitação – E com o sucesso do livro, já está
pensando no próximo?
Miriam Leitão – Por enquanto não, estou ainda
trabalhando na divulgação. Gostei muito de fazer esse trabalho, mas foi um
estudo difícil, pesado e me tomou todas as férias e os fins de semana. Às vezes
dava vontade de pegar sol, uma prainha, mas voltava para o livro. Mas estou muito
feliz com a jornada. Surpreendeu minhas expectativas. Na quarta semana já
estava na segunda edição; então é uma alegria imensa. Uma sensação muito boa,
pois queria contar uma história que as pessoas estão entendendo, concordando,
se interessando, discutindo. É uma sensação extraordinária.
Agitação – Você é considerada uma das mais completas jornalistas do país. Que dicas
pode dar para os estudantes de jornalismo para alcançar sucesso na profissão?
Miriam Leitão – O primeiro conselho que dou é ler
muito. Essa é uma geração das mídias sociais, que lê um pouquinho ali no
twitter, um pouquinho aqui no facebook, mas precisa arranjar um tempo para ler
os clássicos. Eles ensinam a escrever, e essa é a ferramenta mais importante. É
com ela que você vai ser claro, ser compreendido, fazer um texto agradável e
isso nunca vai deixar de ser fundamental. É importante não perder a noção da
força do que você está vivendo. Não se acostumar com a corrupção, com os baixos
índices de escolaridade, não ficar cético com o país. Sempre entender que seu
trabalho é importante para a sociedade. O jornalista hoje tem a vantagem, que
eu não tinha no começo da minha vida profissional, de ler jornais de outros
países. Antes eu comprava o Financial Times com quatro dias de atrasado. Hoje
está tudo na internet. E para isso precisa saber outras línguas. Tem de saber
bem inglês e espanhol. Não dá para ficar apenas no seu mundo.
Agitação – Você chegou a fazer estágio quando
era estudante de Jornalismo?
Miriam Leitão – Minha vida profissional foi um
pouco diferente da trivial. Na cidade onde comecei a atuar profissionalmente
não tinha curso de Jornalismo. Então comecei a cursar História, quando consegui
meu primeiro emprego em um jornal de Vitória/ES. Então fui aprendendo na
prática. Não conclui o curso e pulei para o Jornalismo na primeira turma da
faculdade. Depois terminei o curso na Universidade de Brasília (UnB). Mas já
exercia a profissão. Aprendi na marra e com a ajuda dos colegas de profissão.
Agitação – Gostaria de deixar alguma mensagem para os jovens?
Miriam Leitão – Para o público estudante, gostaria
de dizer que só sabendo o passado é que a gente, no futuro, não comete os
mesmos erros. Foi com esse objetivo que eu escrevi a Saga Brasileira. Agora a gente não pode mais permitir que a
inflação volte, até porque o país tem muitas tarefas grandes para fazer, e uma
delas é melhorar o nível de educação de todo povo brasileiro.
(por Cláudio Barreto)