quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Entrevista com Miriam Leitão


Considerada uma das jornalistas mais completas do país, Miriam Leitão, comentarista econômica da TV Globo lançou recentemente o livro Saga Brasileira, no qual conta a história dos planos econômicos e do cotidiano do brasileiro durante os períodos de inflação. A seguir a entrevista que eu fiz com ela, publicada na Revista Agitação n.º 100. Interessante principalmente para quem se liga em História, Jornalismo e Economia.
Agitação – O livro Saga Brasileira está entre os mais vendidos no país. Como foi para a jornalista Miriam Leitão escrever uma história da economia brasileira e fazer tanto sucesso?

Miriam Leitão ­– Gosto muito de economia e acho que as pessoas sabem mais do que pensam que sabem sobre o assunto. Quando elas tomam decisões sobre seu dinheiro, no dia-dia, estão tomando decisões econômicas. Como jornalista, preciso de ser entendida e deixar o “economês” de lado. No entanto, tenho mais de 30 anos de jornalismo econômico, ou seja, tenho de ser exata do ponto de vista econômico, mas também preciso ser clara. O desafio é esse: manter o conteúdo econômico, mas fazer um produto jornalístico.

Agitação – O livro foi lançado no momento em que temos uma inflação querendo dar as caras de novo. É bom ficarmos alertas? Você vê riscos de o governo perder o controle da inflação?

Miriam Leitão ­– Não acho que exista o risco de perder o controle. Mas a inflação acumulada nos últimos 12 meses está acima da meta. No começo do ano houve mais riscos, e agora menos. Mas acredito na sabedoria do povo brasileiro. Ele não vai deixar a inflação subir muito. O governo que brincar com isso vai ser punido com queda de popularidade. O país não quer mais inflação alta. Tanto que quando começou a subir, todos se assustaram. O governo terá de obedecer a esse comando. Caso contrário, terá baixa popularidade.

Agitação – Os jovens não viveram aquele período inflacionário e talvez a maioria nem saiba o que é inflação. O que o livro Saga Brasileira pode acrescentar para os leitores que não conviveram com essa realidade?

Miriam Leitão ­– Quando fui escrever o livro, pensei em vários tipos de público. Os da minha faixa etária viveram a inflação fora de controle e todas as mudanças de regras. Eu queria contar para eles o quanto que nós resistimos. Porque muita gente da minha geração já se confunde com os planos econômicos. E também pensava nos jovens, porque queria que eles tivessem noção do que seus pais viveram. E estou tendo muita resposta desse público. Um dia desses estava em Joinville e um jovem me disse que não tinha noção do quanto foi complicado esse período. Então também mirei neles, que estão entrando agora no mercado de trabalho, para que saibam os riscos que a gente correu, como lidamos com essas dificuldades e como o país resistiu a isso tudo.

Agitação – E como uma população com baixo nível de escolaridade e de poder aquisitivo conseguia sobreviver aos excessivos e mirabolantes planos econômicos da época e à inflação galopante?

Miriam Leitão – Ao reeditar essa história, aprendi a nunca subestimar a inteligência do povo brasileiro. Apesar da baixa escolaridade, que é um dos problemas que a gente tem de enfrentar, ele é inteligente. Mesmo com essas dificuldades, o povo conseguiu entender coisas muito complexas do ponto de vista econômico, como a história da URV (Unidade Real de Valor) – uma moeda virtual, que não existia, apenas uma unidade de conta. O governo deu um prazo na época, de um ano para que as pessoas entendessem aquele mecanismo, mas em três meses 95% dos contratos de aluguéis, salários, mensalidades escolares e condomínios já estavam convertidos para URV. Conto casos que li em jornais da época em que vendedores ambulantes do centro do Rio de Janeiro colocavam placas: venha aqui que te ensino como funciona a URV.

Agitação – Quando surgiu o Plano Cruzado, o Brasil vivia a esperança da redemocratização e o povo apostou no plano, foi às ruas, serviu de fiscal do Sarney. O PMDB elegeu praticamente todos os governadores naquele ano e após as eleições o plano sucumbiu. Na sua análise, era um plano eleitoreiro ou de boas intenções?

Miriam Leitão – Era inicialmente um plano com boas intenções. Houve uma grande discussão dentro da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio, anos de debate para se desenvolver uma tecnologia de combate à inflação brasileira. A nossa era diferente das outras do mundo; era uma super inflação e depois uma hiperinflação indexada que durou mais de duas décadas. Então, os economistas estudaram que as terapias tradicionais não funcionavam no Brasil. Precisava de um choque heterodoxo ou a entrada de uma nova moeda. O presidente José Sarney aplicou aquilo que já havia sido muito discutido na academia.

Agitação – E por que não deu certo?

Miriam Leitão – No começo deu certo, mas aí o presidente Sarney ficou muito encantado com a popularidade dele, que cresceu muito, e resolveu não fazer os ajustes necessários nas contas públicas para garantir a manutenção do plano. Ele não queria dar má notícia e perder a popularidade. Depois também teve uma interferência política que distorceu um pouco. Mas o Cruzado foi um fenômeno sociológico importante porque mostrou o quanto o brasileiro estava disposto a fazer qualquer coisa para ter uma inflação baixa. Eles não foram fiscais do Sarney. Era um consumidor a se envolver na luta para salvar a economia do país.

Agitação – Você acha que esse “fazer qualquer coisa” pela inflação baixa foi o que permitiu ao governo Collor colocar em ação um plano tão audacioso como o confisco da poupança, com a população aceitando aquilo tudo?

Miriam Leitão – O Plano Collor foi o pior plano já feito. Ele foi mal elaborado, mal implantado, mal executado e provocou a maior violência econômica que o Brasil já viveu, que foi o sequestro do dinheiro que as famílias conseguiram guardar nos bancos e estavam aplicados em títulos públicos. Era um voto de confiança das famílias e das empresas nos títulos do governo e na caderneta de poupança que era uma garantia federal. O povo brasileiro foi traído. E não reagiu contra porque era o início de governo. É natural que o presidente tenha apoio no princípio. E o próprio presidente Collor transferia para as elites ou especuladores, a culpa daquilo que ele tinha responsabilidade e tinha aceitado em fazer um plano de confisco. O povo brasileiro aceitou até isso porque estava desesperado, mas, em três meses, a inflação já tinha atingido dois dígitos. Aí a popularidade do presidente ruiu de vez.

Agitação – E o plano real, por que deu certo?

Miriam Leitão – O Plano Real deu certo porque aprendeu com os erros dos outros planos. Mas o mais importante foi o fato de ter convocado as pessoas a entenderem primeiro, para ser colocado em prática depois. Foi o que aconteceu com a URV. Quando todo mundo tiver entendido, vamos transformá-la numa nova moeda.

Agitação – Mas as condições políticas e econômicas eram muito desfavoráveis na época.

Miriam Leitão – Não eram nada fáceis. Era um governo tampão, porque o presidente tinha caído e o vice-presidente, Itamar Franco, tinha assumido por um período curto. Fernando Henrique Cardoso foi o quarto ministro da Fazenda em quatro meses. Restava muito pouco tempo para aquele governo. E estava todo mundo assustado pelo Plano Collor. E o Plano Real veio prometendo não trazer surpresas e ensinando a população como deveria ser. Mas, depois, o plano precisou ser garantido pelas várias crises que aconteceram a seguir, como a bancária, a asiática, o colapso cambial de 1999, e até na transição política. O trabalho do Fernando Henrique nos oito anos seguintes foi fazer a consolidação. Mas tudo poderia ter sido perdido se o presidente Lula não tivesse tido a sabedoria de manter as bases do plano, apesar de, no quadro político, ter sido adversário dos autores do plano. Lula foi muito sábio e Fernando Henrique muito persistente nos vários testes e desafios que o plano enfrentou. Acho que a gente fez um bom trabalho coletivo como país e pelas pessoas.

Agitação – E com o sucesso do livro, já está pensando no próximo?

Miriam Leitão – Por enquanto não, estou ainda trabalhando na divulgação. Gostei muito de fazer esse trabalho, mas foi um estudo difícil, pesado e me tomou todas as férias e os fins de semana. Às vezes dava vontade de pegar sol, uma prainha, mas voltava para o livro. Mas estou muito feliz com a jornada. Surpreendeu minhas expectativas. Na quarta semana já estava na segunda edição; então é uma alegria imensa. Uma sensação muito boa, pois queria contar uma história que as pessoas estão entendendo, concordando, se interessando, discutindo. É uma sensação extraordinária.

Agitação – Você é considerada uma das mais completas jornalistas do país. Que dicas pode dar para os estudantes de jornalismo para alcançar sucesso na profissão?

Miriam Leitão – O primeiro conselho que dou é ler muito. Essa é uma geração das mídias sociais, que lê um pouquinho ali no twitter, um pouquinho aqui no facebook, mas precisa arranjar um tempo para ler os clássicos. Eles ensinam a escrever, e essa é a ferramenta mais importante. É com ela que você vai ser claro, ser compreendido, fazer um texto agradável e isso nunca vai deixar de ser fundamental. É importante não perder a noção da força do que você está vivendo. Não se acostumar com a corrupção, com os baixos índices de escolaridade, não ficar cético com o país. Sempre entender que seu trabalho é importante para a sociedade. O jornalista hoje tem a vantagem, que eu não tinha no começo da minha vida profissional, de ler jornais de outros países. Antes eu comprava o Financial Times com quatro dias de atrasado. Hoje está tudo na internet. E para isso precisa saber outras línguas. Tem de saber bem inglês e espanhol. Não dá para ficar apenas no seu mundo.

Agitação – Você chegou a fazer estágio quando era estudante de Jornalismo?  

Miriam Leitão – Minha vida profissional foi um pouco diferente da trivial. Na cidade onde comecei a atuar profissionalmente não tinha curso de Jornalismo. Então comecei a cursar História, quando consegui meu primeiro emprego em um jornal de Vitória/ES. Então fui aprendendo na prática. Não conclui o curso e pulei para o Jornalismo na primeira turma da faculdade. Depois terminei o curso na Universidade de Brasília (UnB). Mas já exercia a profissão. Aprendi na marra e com a ajuda dos colegas de profissão.

Agitação – Gostaria de deixar alguma mensagem para os jovens?

Miriam Leitão – Para o público estudante, gostaria de dizer que só sabendo o passado é que a gente, no futuro, não comete os mesmos erros. Foi com esse objetivo que eu escrevi a Saga Brasileira. Agora a gente não pode mais permitir que a inflação volte, até porque o país tem muitas tarefas grandes para fazer, e uma delas é melhorar o nível de educação de todo povo brasileiro.
(por Cláudio Barreto)  

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